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Um ano e meio atrás, bem no início da crise de Corona, nossa mente lúcida nos fez acreditar que só haviam saídas: a infecção ou a vacinação. No verão de 2021 estaremos próximos desse desfecho e/ou da imunidade do rebanho, pelo menos nos países com sistemas de saúde organizados (incluo o Brasil nessa lista). É hora de começar a pensar no futuro, na era da pós-pandemia.

A meu está reservado, sou faxineiro em um restaurante em Zürich, conheço bem os ralos e cantos que me esperam… mas e o coletivo?

Consequências de médio e longo prazo esperam ansiosamente a chegada temporal da nossa coletividade. Muita são discutidas abertamente, como a economia, o retorno do desenvolvimento social, a recuperação escolar e o processo de amadurecimento e experimentação dos jovens.

Uma consequência duradoura que temos de enfrentar é o dano ao que costumamos chamar de “sociedade”. A res publica, o assunto público que definiu a autoimagem do Estado liberal esclarecido, branco, bonito, elegante e bem penteado está desaparecendo como realidade e como ideia. O capitalismo se sustenta as duras penas com um apoio massivo dos estados e nações, especialmente na América Latina e na Europa. A pandemia funcionou como um combate, através do qual, vários ataques às instituições aconteceram de dentro e de fora.

A simples noção do que foi “trabalhar” (base do sistema liberal) mudou por total, simplesmente “trabalhar” durante esses últimos 14 meses nos dá uma ideia de como a falta de prática de vida e a perda de status desconstruíram determinados conceitos por traz do “trabalhar”, o potencial de reconhecimento e identificação individual, por meio de uma identidade social relacionada ao trabalho foi desmantelada, o lugar de trabalho desapareceu, profissões inteiras foram colocadas em pausa ou aniquiladas.

Outra consequência duradoura, essa mais a médio prazo, é a busca energética por prazer, por uma descarga catártica que compense prazerosamente o mal-estar que sofremos nesses 14 meses. O retorno entusiasmado do samba e da cerveja gelada.

Esse hedonismo pós-pandêmico encontra muitas justificativas convincentes para seu modelo de vida nas racionalizações individuais e coletivas que delirantemente criamos a cada nova pessoa vacinada.

Ele surge de uma batalha interna que precisa ser entendida.

Primeiro, há um estado de espírito coletivo com o qual os cidadãos tiveram duas experiências contraditórias durante a crise do Corona. Por um lado, o Corona provou sua autoridade, ele mostrou que somos nada, insignificante em nossos possantes jatos de guerra e fabulosos porta-aviões, em nossas ideologias políticas e consensos libertários. Por outro lado, proibições de comércio e reuniões, toques de recolher e códigos de vestimenta – todos corretos, como decretos de emergência, violações profundas dos direitos fundamentais, foram aplicadas da noite para o dia sem resistência significativa. E assim deve ser, nesse caso, e somente.

Aqui, as superestruturas massivas de poder, o estado, a colossal máquina de controle e vigília, demonstraram sua soberania. Ao mesmo tempo, o estado sofreu uma perda gigantesca nas suas microestruturas. E, é nessas microestruturas que ele se conecta com a população. Os seus funcionários também são população, como se os dedos da mão fizessem parte da fruta que é segurada e não parte da mão, esses funcionários também se recolheram, temeram, sentiram a insegurança e foram vítimas e porta vozes de políticas fracassadas e atrapalhadas.

O estado precisa assumir essa perda o quanto antes.

Em países onde a comunicação política evitou apelar para a responsabilidade compartilhada, onde governos por populismo ou pura burrice não assumiram essa responsabilidade, o preço foi alto. E não me refiro ao Brasil e a Índia exclusivamente.

O estado não fez nenhuma promessa de equilibrar interesses e proteger os fracos. O estado foi e continua sendo covarde e omisso. As gerações anteriores consideraram as crises e desastres como uma oportunidade para promover a solidariedade nacional e criar um sentimento de união. Dessa vez o estado ne disfarçou, abertamente defendeu os grande capitais em detrimento dos indivíduos.

Nesta pandemia, isso nunca foi um objetivo estratégico. Não houve comunicação compassiva. Não foi considerado necessário trazer para a discussão conceitos como harmonia, espírito comunitário e cuidado. Os políticos temiam as obrigações financeiras e sociais que isso acarretaria. Optaram por dividir, gerar conflito e polêmica, para no pós-crise, conquistar e saquear.

O resultado foi cacofonia de fake-news à burrice, em uma disputa violenta entre as estruturas federais, estaduais, municipais, científicas e botequeiras de WhatsApp, além da sociedade civil organizada. Presos em suas lógicas corruptas e sedentas de poder, os governos delegaram suas responsabilidades de forma cada vez mais baixas até que finalmente pousou aos pés do cidadão individual: sem as máscaras e nossos frasquinho de desinfetante estaríamos totalmente reféns do vírus.

Sobrevivemos ao deus-dará pandêmico

As medidas restritivas estão sendo diminuídas, logo os hedonistas vão sair correndo em busca de seus prazeres. De seus cultos religiosos até baladas de 48 horas, a catarse convoca o corpo a gastar os ácidos e aminoácidos acumulados em cada um dos bilhões de axônios.

Mas, se o estado como instituição administrada por políticos foi quem falhou, por que pensar na sociedade quando a política também esquece o coletivo? Lembrando que esse coletivo é representado no estado exatamente pelos políticos ladrões, burros e populistas eleitos pela sociedade, pelo coletivo.

Então, para que culpar os hedonistas se eles cuidaram de si próprios de forma radical (ou não) durante o caos e sobreviveram? Não seria essa explosão hedônica também uma celebração por ter restado. Aqueles que se permitirem satisfazer seu próprio prazer e bem-estar pessoal, da missa do galo até a suruba na praia, não precisam temer a consciência pesada. Celebre, exalte-se, goze-se

Os apelos por moderação carecem de credibilidade porque são emitidos pelo estado que há 14 meses fracassa planetariamente. Por que alguém deveria levar o coletivo em consideração quando até mesmo a política (o maior dos atos coletivos) deixou de abordar este coletivo e o interesse comum durante uma pandemia? Salvar os grandes conglomerados foi o primeiro ato, depois de tudo salvo foi a vez investir em grandes conglomerados para obter vacina para abrir a circulação do público e salvar a economia. Nunca foi o indivíduo.

Mas não sobreviveremos ao homem

Como contraparte dos hedonistas, os ascetas (nos quais eu me incluo), são precisamente essa impotência coletiva que é o primeiro artigo da constituição interna, controlar a si mesmo frente a todas as demandas do sedento corpo em vista do futuro e do global.

As tarefa são listadas de forma inequívoca: o aquecimento global deve ser desacelerado, a natureza deve ser protegida do humano, o acesso implacável dos humanos às reservas planetárias devem ser fechadas e o planeta deve ser salvo da destruição total, começando pela natureza e os bichinhos, depois as crianças e só por último os seres humanos adultos e bem penteados.

Mas como falta força coletiva para os ascetas, sempre reclusos e meditabundos, a tarefa nunca engaja o coletivo da sociedade, mas fica pairando sobre cada indivíduo tocado por esses ideários pouco mercadológicos. Não se conquista a massa quando a sua logomarca é bege, sua comida é sem glúten e sem sal. Da impotência individual à eficácia coletiva – essa é a auto-capacitação ascética, um pouco paradoxal, eu reconheço (vamos lá ascetas, mais criatividade e hedonismo para seduzir a todos).

Nosso instrumento está se afastando do mundo, e isso significa se afastando da carne e do óleo. Esses dois ingredientes do estilo de vida capitalista que devem ser abandonados. Os ascetas se afastam das tentações deste mundo e contam com recompensas sobrenaturais em troca (um universo em conecção). As próximas gerações se beneficiarão com as restrições, pois o planeta sobreviverá ao homem.

No entanto, os ascetas não se beneficiarão diretamente. Esta falta de reconhecimento deve ser compensada: através de um maior sentido de missão e da consolidação da própria identidade através da condenação de quem não segue o ideal ascético. Também aqui o ascetismo tende a se radicalizar. Esse é o seu principal perigo (além da chatice, eu assumo).

Não acredita????

Pense em um conceito mais simples: Esse asceta que descrevo aqui, é o que abre mão de si em prol do coletivo. Médicos, porteiros, enfermeiros, motoristas de ônibus, cobradores, caixas de supermercados, balconistas de farmácia, assistentes-sociais, entre outros, aqueles cuja profissão (ou atuação social) ficam acima de si mesmos. Profissões que perderam, em alguns casos, até 20% da mão de obra para o vírus.

Seguindo a discussão

Vamos mais além. A pandemia mais uma vez demonstrou a primazia da economia frente aos indivíduos na predileção do estado. Na sociedade contemporânea, as convulsões políticas nos últimos vinte anos foram extensas e provam exatamente esse ponto. 11 de setembro de 2001, a crise bancária de 2008, a transformação social por meio da digitalização e agora a pandemia – não sobrou pedra sobre pedra em nenhuma dessas crises. E só listei crises globais que me lembrei rapidamente, mas pense também em crises intracontinentais, crises nacionais. São incontáveis os momentos em que economia colapsou e foi salva pelo estado em detrimento de seus indivíduos. As pessoas ficam sem teto, mas a bolsa de valores é resgatada como um bem maior.

“Por outro lado, nada mudou na ordem básica, mais do que isso, foi concretizada. Aconteça o que acontecer, os ricos ficaram mais ricos e a desigualdade social aumentou. Isso dá origem ao evangelho da economia total: os impérios podem entrar em colapso, apenas o poder do capital é confiável, só isso é a salvação”. E não peça, não vou citar a fonte.

A pandemia deixará grandes buracos nas finanças públicas. Os próximos anos e décadas serão marcados por uma guerra de distribuição implacável, nacional e globalmente, a logística da renda será uma dança terrível. A prioridade dos capitalistas de grande porte é inteiramente protegida nesta lógica. Todo esforço deve servir ao objetivo de levar o maior pedaço de bolo possível. Os ativos há muito são avaliados e quando caem, o estado compensa a perda usando da massiva fortuna gerada pelos indivíduos que ganham melhores ambientes para trabalhar mais e poder recolher mais impostos (quando a corrupção não come também os ambientes).

Perca educação e desempenho, ganhe capital e propriedade. A riqueza é apenas achada, ganha, comprada, não mais produzida, é digitalmente minerada. A meritocracia, na qual conquistas e méritos levam ao avanço social, logo pertence como memória nostálgica no álbum de poesia da história da classe média que continua vivendo um conto de fadas vitoriano ou americano do anos 60.

Hedonismo pós-pandêmico, o novo ascetismo e os capitalistas: esses três projetos não são opostos,  eles são mutuamente dependentes.

Todos os capitalistas entregarão as mercadorias aos hedonistas para satisfazer sua luxúria. Ao mesmo tempo, os hedonistas capacitam aqueles capitalistas que têm ideais e objetivos, mas infelizmente não têm os meios e, portanto, têm que arar para se desenvolverem em uma alternativa de vida que está sempre disponível. O preço disso é a dívida bancária – o primeiro meio de financiamento do consumo. O velho ciclo Marxista.

Em comparação com a produção econômica, na Suíça (país rico, mas pequeno e com pouca matéria prima), por exemplo, a dívida privada é duas vezes mais alta que na zona do euro. E não há razão para supor que isso vá mudar. Os hedonistas adoram cartões de crédito. Mas eles também produzem um bem. Eles fornecem aos ascetas um exemplo assustador e significativo. Somente a irresponsabilidade dos hedonistas dá estabilidade interna ao plano ascético de existência.

Enquanto os hedonistas obtêm os contratos de empréstimo mais baratos, todos os capitalistas negociam online e os ascetas mobíliam suas pequenas casas com coisas recicladas.

E todos cultivam cuidadosamente suas neuroses e fantasias de território identitário.

Eles são surpreendentemente semelhantes em uma coisa: Todos eles acham que se definem sem a sociedade. Participar da sociedade, fazer parte do coletivo não é uma opção para nenhum do três, não quererm. A sociedade é algu ruim.

Uma identidade de cidadão minaria sua própria autoconfiança. Você não precisa do estado ou do público. E todos os dias eles continuam a trabalhar para fortalecer sua identidade individual e romper sua identidade social, o tecido logo rompe, aí veremos a consequência maior de longo prazo.

Sempre otimista

Raul de Freitas Buchi

na dúdida, como odeio odiadores, os cometários estão fechados, mas escreva para raul@semdomínio.com, quem sabe…

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